A MORTE DE JOSÉ
O fato que agora relato, aconteceu em Fortaleza,
Mas poderia ser também em São Paulo ou Curitiba.
Não chega a ser comum, mas não é uno com certeza,
Pois Josés existem no Rio, em Pernambuco e Paraíba.
Domingo, manhã ensolarada, dia ideal para o lazer.
Um papo no bar, uma cerveja no clube ou na praia.
Talvez praticar caminhada para as energias refazer.
Tudo muito tranqüilo, sem nada que se sobressaia.
Eis que de repente um cortejo para si atrai olhares,
Desperta a curiosidade e todos param para ir ver
Passar um carrinho de sucata, seguido de populares,
Dentro do carrinho a razão do desfile acontecer.
No mesmo jaz, inerte, o corpo de um homem morto.
Esquálido, raquítico e, encimando, o rosto famélico
Mostrando o viver uma vida sem nenhum conforto
E o terminar dela como se tivesse sido um angélico.
Contemplo tudo angustiado, fora de mim, absorto
Ante cena dantesca, macabra, horripilante que é.
Indagando aos passantes para onde levam o corpo,
Respondem acabrunhados : Pro barraco do José !
José levado em seu próprio carrinho, como sucata,
Meio que usava para manter-se, o único que havia.
Nele carregava o que achava: papel, plástico e lata,
Vivo ele o conduzia, após morto, conduzido seria.
Em país menos atrasado, José outro destino teria,
Pois com tratamento correto a morte seria evitada.
E com assistência humana, por certo conseguiria
Retornar ao trabalho e ter a vida mais aprumada.
José não morreu porque chegou seu dia de morrer,
Morreu antes, isso porque o sistema de saúde falho é.
Saúde pública é falida, pobre de quem a ela recorrer.
Morre a mingua, jogado, largado, como morreu José
A meia boca disseram que José morreu de dengue.
Boato, palpite, em realidade foi sequer examinado!
Culpados? Houve culpados, mas a realidade ofende
Sim, somos nós, os omissos, pelo dever mal realizado.
Dever de exigir dos políticos que cumpram promessas;
Dever de cumprir o que a religião recomenda e manda.
Mentiroso, irresponsável, há que ser deposto às pressas.
Ajudar o próximo é lei divina, não importa a demanda.
O cortejo ao passar instalou um mal estar profundo,
Todos perguntando: E o governo onde está, se omite?
Dez minutos depois tudo esquecido, “dane-se o mundo”!
Voltamos ao bar, à caminhada, quem quiser que grite.
(Mauro Mazza)
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