segunda-feira, 17 de maio de 2010

                   ASSÉDIO

Seu olhar foi mais que um convite,
Eu simplesmente me senti desafiado,
Se saísse fora pareceria um viado,
Nessa hora a ética chega ao limite.

Já cheguei com uma mão no peito,
Beijo no pescoço, outra mão na bunda,
Mostrando ter uma intenção segunda,
Que faria as coisas, dentro do meu jeito.

O beijo foi profundo, molhado, safado.
As línguas entraram em duelo, em luta,
Vi que em meus braços havia uma puta,
Maluca, doida para ter seu tesão aliviado.

O boquete foi guloso, forte muito gostoso.
Eu, de minha parte, fiz o que me competia,
Com os dedos e com a língua eu a invadia,
Ela abria as pernas de modo muito apetitoso.

Toda molhada, encharcada, ela me recebeu.
Em menos de cinco minutos estava gozando
E eu, pensando na sobremesa, me segurando.
Ao ficar de quatro, minha intenção percebeu.

Seus próprios fluídos serviram de lubrificante,
A penetração foi, de início, calma e devagar,
Apesar do meu tesão, não a queria machucar,
Pois nossa transa, iria se repetir mais adiante.

Minha tática deu o resultado que eu queria,
Naquele mesmo dia, tudo, tudo teve um bis.
Foi de frente, de lado, foi do jeito que eu quis
E, pelo gosto dela, novamente se repetiria.

E tudo se repetiu, muitas dezenas de vezes,
Sempre às sextas-feiras, no fim do expediente.
Desse serão muito gostoso, a gente saía contente,
Satisfeitos e mais felizes. Esquecidos dos reveses.

Mas o marido promovido, a fez deixar de trabalhar!
Ficamos ambos tristonhos, decepcionados, infelizes!
Mas o mundo anda prá frente, vamos superar as crises.
Outra secretária, estou a recrutar. Quer se candidatar?
(Mauro Mazza – 11/03/09)

A CIÊNCIA ESPÍRITA

A ciência espírita tem um desafio:
Comprovar haver vida após a vida.
É uma coisa inaudita, um desvario,
Provar aquilo que ninguém duvida.

Qual matéria que compõe o espírito?
Como saber, se nunca foi dissecado?
É a mesma que compõe o perispírito,
Tudo continua muito mal explicado.

Seria então o chamado ectoplasma?
Mas esta também é ainda indefinida.
Questão insólita que a todos pasma,
Parece estar próxima de ser resolvida.

Existência provada na física quântica,
Mas tem sua comprovação dificultada,
Agora por uma questão de semântica,
Pois expressão nova terá de ser criada.

Aos mais doutos fórmulas matemáticas.
Aos menos, a difícil explicação verbal.
E nada de explicações simples, didáticas.
Difícil explicar, difícil entender, é natural.

Deduções aceitas pela ciência, sem léria:*
Os cientistas aceitam que a luz tem peso
E que a negritude do universo é matéria,
Falta aceitar que espiritualista não é leso.

Espiritismo é uma ciência experimental,
Parte do acontecido para tirar conclusões.
Se guia por deduções de maneira formal,
Aceitando das ciências, as suas condições.

Tenta-se através de termos já consagrados
Explicar fatos que acontecem todos os dias
Não há convencimento por falta de dados
Pois os termos atuais só permitem alegorias

Admitem o consciente e o subconsciente
Consciência, ego, id, alma, espírito, já não
O que se expõe é, para eles, insuficiente
Exigem, para cada, uma melhor explicação

Quem somos? De onde viemos? Existimos?
Haverá vida em outros lugares do universo?
Existe auto determinação ou apenas fluímos?
Não importam as respostas, há controverso.

(Mauro Mazza – 11/10/08)
*Léria= Fala astuciosa, patranha, lábia 
 A ARTE DE ESCREVER

As palavras dispostas
Em prosa ou em verso
Sendo bem compostas
Tendo sentido emerso

Compõem obra de arte
Conforme uma pintura
E grande valor destarte
Tal qual uma escultura

Criar toda uma história
Relatar um acontecido
Tirar coisas da memória
E a tudo dar um sentido

Poder de síntese exige   
E de saber se expressar
Usar da língua que vige
Sem o direito de errar

Há esculturas mal feitas
Até de mestres famosos
Nas artes não há receitas
Para efeitos auspiciosos

Ensina-se regras básicas
Tendo o dom desenvolve
Mas não existem mágicas
E só vontade não resolve

(Mauro Mazza – 10/09/08)

SAFADEZA (Conto)

  
Estávamos no aeroporto de Recife, eu e minha mulher, tínhamos acabado de despachar as malas,  pego os cartões de embarque e procurávamos um lugar para sentar e aguardar a chamada para o vôo.    Sendo aquela a nossa primeira viagem internacional ansiedade era grande. De repente, ouvimos um grito alegre:
— Dr. Clovis! Que surpresa! Puxa que satisfação!
Estava diante de nós um senhor aparentando seus sessenta anos, de bermuda, tênis e camisa colorida. Sua fisionomia era por mim conhecida, porém não lembrava quem fosse e, muito menos seu nome (sempre tive dificuldade de relacionar rostos a nomes). Fiquei ainda mais sem-jeito quando ele se inclinou e deu-me um beijo no peito, na altura do coração.
A esta altura a mulher dele já estava à seu lado e olhava para a minha, ambas com o olhar cheio de curiosidade.
Eu estava fazendo um esforço danado para lembrar quem era sem que nada me viesse à mente quando ele, abraçando sua esposa, me apresentou:
— Este é o Dr. Clóvis, aquele que impediu a falência da Santa Paula, me fez renascer e mudou nossas vidas. É o consultor que me recomendou e ajudou a vender a empresa.
Aí foi a vez de a esposa me abraçar e emocionada dizer:
— Deus lhe pague! Além de salvar a vida do meu marido, fez com que a gente passasse realmente a viver a vida.
Lembrei-me então de quem era e em que situação o conheci, só faltava lembrar seu nome. Sua esposa veio em minha salvação. Virando-se para minha mulher disse:
— Seu marido é um santo! Apareceu para o Salvieri no momento em que ele mais precisava e, além de ajudar a salvar sua vida, salvou seu futuro, nosso futuro.
Estávamos conversando há uns dez ou quinze minutos, ele me perguntando o que estava fazendo, onde morava, etc., quando o serviço de alto-falantes do aeroporto fez a chamada para o embarque do vôo deles. Estavam indo para Porto Seguro.
Antes das despedidas a mulher ainda contou que a Clara, sua irmã,  tinha se separado do marido logo após a venda da empresa, que estava grávida e  se recusava a contar o nome do pai da criança, “fruto de uma noitada”, justificou ela. Salvieri já em pé arrematou:
— Deixa ela! Não tem problema não, faz de conta que é um neto, nós ajudamos a criar. Já estamos criando a primeira, vamos criar a segunda também.
Eles já estavam na fila pré-embarque quando a mulher veio a ter conosco novamente e confidenciou:
— Ele ainda não está sabendo, mas a filha da Clara está grávida também e o pai é o nosso filho. Esta viagem é para eu prepará-lo para a notícia: Vai ser avô de verdade!
Bastou ficarmos sozinhos e minha mulher curiosa me inquiriu:
— Me conta aí, quem são eles? O que aconteceu para tanto agradecimento? Que milagre você fez? Salvou a vida do homem! Deu uma de médico por acaso? Você nunca me contou nada.
Pedi-lhe que aguardasse mais um pouco. Teríamos pela frente seis horas contínuas de vôo, poderia então contar-lhe tudo com calma e sem interrupções.
Instalados em nossas poltronas, mal o avião alçou vôo ela me cutucou:
 — Fala aí, conta logo essa história.
Comecei:
Indicado pelo Sr. Cruz, nosso antigo vizinho de bairro, contador, dono de um escritório de contabilidade muito movimentado, sabedor que eu tinha realizado trabalhos de consultoria empresarial em algumas empresas de renome na cidade, fui ter com o Sr. Salvieri, lá pelos anos de 96 ou 97, ou seja, há doze ou treze anos.
Ele, a época, era proprietário de uma empresa atacadista de alimentos não-perecíveis e de produtos de limpeza, tinha começado as atividades junto com um irmão há cerca da vinte anos antes. Experimentaram um progresso razoável até que o irmão morreu, vítima de assassinato.
O assassino era amante da mulher do irmão.
Salvieri manobrou e acabou ficando sozinho no negócio.
Após isso a empresa começou a definhar. O estoque de mercadorias permanecia estável, mas os saldos bancários diminuíam a cada dia.
Negociante sofrível e com pouca escolaridade, por mais que fizesse contas não conseguia descobrir as razões da queda dos lucros.
Pensou em roubo, aumento de despesas, aumento de impostos e outras coisas mais. Trocou porteiros, vigias, motoristas e entregadores.
Passou a conferir pedidos e notas fiscais. Dava “incertas” na recepção e expedição de mercadorias. Passou a conferir com mais atenção o Caixa. Nunca achou nada.
Reclamando com o contador esse, como me conhecia, recomendou-me.
Costumo iniciar meus trabalhos distribuindo questionários escritos e entrevistando os principais colaboradores da empresa. Assim fiquei sabendo que a Tesouraria e todos os seus controles estavam sob  a responsabilidade de Alex,  cunhado da mulher do Salvieri. Clara, irmã da mulher dele, também trabalhava na firma, só que no escritório como auxiliar de Pessoal e Contabilidade.
Alex, o concunhado, demonstrava boa escolaridade, era ativo, simpático e bem apessoado. Disse-me que à noite, das 19 às 24 horas, trabalhava, também, na Tesouraria de uma casa de bingos. “Para complementar o orçamento doméstico”, segundo ele.
A segunda coisa que fiz foi, usando uma fórmula bastante conhecida, verificar se os preços de venda praticados eram suficientes para repor os estoques, pagar as despesas e os impostos e, ainda, dar lucros: Eram! Havia uma razoável margem de lucros, deduzi que havia desvios.
Iniciei uma análise apurada dos setores vitais. Comecei logo pela Tesouraria.
Havia em poder do Setor, a espera de recebimento, dezenas de cheques pré-datados e cheques vencidos, estes devolvidos por falta de fundos. Tinha ainda promissórias e duplicatas a serem cobradas. Tudo arrumado, seqüenciado, postos em pastas apropriadas e lançados em planilhas de cálculo no computador.
O Demonstrativo Diário do Movimento do Caixa, que é o controle financeiro básico de qualquer empresa, também era feito em planilha eletrônica pré-estruturada, todo atendimento era feito pelo guichê e, como determinava o Contador: ”Toda movimentação era documentada”.
Os cheques para pagamentos eram feitos pelo Alex e assinados unicamente pelo dono, “à vista dos comprovantes dos débitos”.
Aparentemente uma beleza, uma perfeição, complementada pela confiança na pessoa que estava no cargo.
Duas coisas porém chamaram minha atenção:
1) Os recibos usados, tanto pelos vendedores como pelo Tesoureiro, eram  impressos padronizados, desses vendidos em papelarias;
2) Nos Demonstrativos Diários dos Movimentos do Caixa não havia referência nem lançamentos dos cheques devolvidos pelos bancos.
Não tive dúvidas, ali tinha “rolo”!
Fui ao Banco e conversei com o Gerente da Conta, que, após me ouvir com interesse e atenção, na minha presença, telefonou para o Salvieri, falou alguma coisa com ele e me passou o telefone. Eu disse que tinha achado uma pista e que precisava do extrato dos últimos trinta dias, ele concordou e  devolvi o telefone ao Gerente, que voltou a trocar algumas palavras. Após tentar me explicar que poderia ter tudo lá mesmo, na Santa Paula, via internet, concordou em me fornecer o que eu pedia. Trinta minutos depois eu saí da agência com tudo  de que  precisava.
Analisando o extrato verifiquei que vários cheques de clientes, devolvidos por falta de fundos, não haviam dado entrada na Tesouraria.
A partir dessa minha constatação, marquei uma reunião com o Cruz, em seu escritório. Lá, com  sua ajuda  e  a de um auxiliar, levantamos uma série de falcatruas que o Alex vinha fazendo, tais como:
1)Apropriar-se do numerário referente aos recebimentos dos cheques de clientes, devolvidos pelo Banco por falta de fundos e, posteriormente resgatados em dinheiro;
 2)Subtrair  valores mediante adulteração de recibos emitidos;
 3)Falsificar recibos de pagamentos;
 4)Reutilizar comprovantes de débitos e, até;
  5)Fazer pagamentos de compras particulares dele com cheques da empresa.
Fiz um pacto de silêncio provisório com o Cruz e, no dia seguinte, convenci o Salvieri a sair comigo antes de findar o expediente para conversarmos a sós, sem interrupções e sem pressa para terminar, sobre a situação da empresa.
Quando relatava e mostrava com documentos e xérox de documentos o esbulho de que estava sendo vítima, senti que ele estava “fora do ar”. Os olhos parados, a boca entreaberta, as mãos largadas sobre a mesa do restaurante onde estávamos. Assustei-me! Parei com o relato que estava fazendo e chamei o garçom.  “A conta, rápido, que eu tenho que levar meu amigo para um hospital.”
— Não! Não precisa, estou bem, está tudo sob controle, não se preocupem, disse ele.
Em vez da água com açúcar que lhe preparei, ele tomou um gole de cerveja e me disse:
— Você começou e agora vai ter que me ajudar a resolver o problema. Comece a ouvir primeiro:
— Não tenho pai, nem irmãos, já morreram,  infelizmente. Não tenho ninguém que eu possa chamar de amigo, sou muito tímido e exigente em minhas relações. Minha mulher é ótima, porém muito simples, quase analfabeta e sem experiência de vida. Não tenho  ninguém para desabafar e procurar conselho, então me ajude, prosseguiu.
— Estou às suas ordens, disponha, espero corresponder,  respondi.
— Primeiro quero que me ouça, depois a gente discute, continuou.
— Tenho 49 anos, só fiz até o ginásio, sou casado e tenho um filho com 16 anos. A Clara, mulher do Alex, como você já deve saber, é irmã de minha mulher, tem 25 anos e uma filha com 4 anos. O que ninguém sabe e agora vou lhe contar é que a criança é minha filha. Isso é segredo! Ela com 17 eu com 40, aconteceu. Com 20 anos ela casou, mas continuamos a nos encontrar, sempre às escondidas. Ela ficou grávida de mim, não do marido, só nós sabemos. Já falei, minha mulher é simplona, ingênua e burra. Ideal para mim há vinte anos, ainda é boa companheira e ótima mãe.
— Mas como estava falando, continuou ele, dei emprego à Clara e ao Alex para ajudá-los, para eles me ajudarem também, pois preciso de pessoas de confiança trabalhando para mim. Você não viu os documentos da empresa, viu?
Diante de minha negativa continuou:
— A Santa Paula, nos documentos, pertence ao Sr. Inácio, lá do depósito, só que eu tenho uma procuração assinada por ele me dando plenos e totais poderes sobre a empresa. No papel eu sou  Gerente. Só que ele não tem nenhuma consciência disso, assinou e assina o que lhe apresento sem questionar. O prédio é meu, alugo para a firma, a qual já mudou de dono, quatro vezes desde que existe: É para não pagar impostos, quando o valor sobe muito encerro tudo e abro outra firma, com outro dono e outra Razão Social. Ninguém sabe disso, só o Cruz, a Clara e o Alex, agora o senhor: Como é que a gente faz?
— O melhor seria você vender tudo, respondi, aplicar o dinheiro em algum fundo de renda fixa e aposentar-se, vivendo dos rendimentos. Poderia também comprar algum imóvel como segurança. O difícil é vender a Santa Paula, respondi.
— Pelo contrário, é o mais fácil, retrucou, neste ramo, uma firma com mais de 20 anos e mais de 300  clientes ativos, é só eu abrir a boca, mas qual seria a desculpa para vender o negócio?
— Se for alegado problema de saúde ninguém será contra, afirmei.
— Mas tenho boa saúde, trabalho direto desde os 15 anos, nunca tirei férias só, de vez em quando, aproveito uns feriadões e vou para a praia. Ninguém vai acreditar, explicou.
— Se você topar, deixa comigo, contra fatos não há argumentos, tenho um plano, topa? Perguntei.
Com sua concordância fiz o seguinte:
1) Procurei um médico cardiologista de minha amizade, lá do clube, expliquei a situação, expus meu plano e ele rindo concordou com tudo;
2) Mandei o Salvieri, durante dois dias, se entupir de sal, tomar uns uísques a mais e, na quarta-feira à tarde, lá na empresa, fingir que estava passando mal, com tonturas e dor de cabeça. Quando chegou a hora, ele representou tão bem que cheguei a ficar com medo. Pedi para a Clara largar o que estava fazendo e nos acompanhar, o Salvieri e eu, até o hospital onde, óbvio, o médico amigo meu estava de serviço.
A farsa teve continuidade perfeita: pressão alta, taquicardia, perigo de vida, internação imediata, etc.
O resultado, como não podia deixar de ser, foi perfeito. Uma semana depois a firma estava vendida.
A Clara permaneceu no cargo, o Alex foi dispensado, Salvieri e esposa foram para um resort na praia onde passaram quinze dias seguidos. Primeiras férias na vida deles.
Meu trabalho emendou, fiquei com o novo proprietário por mais 4 semanas, quando pude saber do seguinte:
O Alex não tinha nenhum trabalho extra, era sim viciado em jogo. Além disso, tinha uma amante que o largou assim que ele ficou sem dinheiro;
A Clara, em conseqüência, também não o quis mais, separando-se dele e indo morar, ela e a filha, com a irmã e o Salvieri, pelo visto até hoje.
Estávamos aguardando o serviço de bordo quando minha mulher perguntou:
— Mas a filha da Clara não é filha do Salvieri também? Estão todos morando na mesma casa?
 — Que putaria danada, é muita safadeza